Fofocas, futricos e outros papos furados

Este blog é escrito por Diego Scalada.

Quaisquer dúvidas, reclames ou sugestões, escreva para: linguadesogra.blog@gmail.com

  • Das maiores injustiças já cometidas no ludopédio: Barbosa em 1950 e Muriel em 2026

    Em 1950, o Maracanaço precisava de um algoz que expiasse a tremenda derrota impingida pelo Uruguai de Alcides Ghiggia contra o escrete canarinho, num dos episódios mais improváveis após o 7 x 1 em 2014. Os brasileiros, que até a final exultaram e subiram nas tamancas anunciando a conquista do mundial antes da final, viram o destino, cruel porém justo, contrariar as expectativas de sua presunçosa jactância galinácea, já convencida e inebriada pelos brios da glória.

    Como diria Muricy Ramalho: “a bola pune”. E a frustração daquela clamorosa derrota rapidamente cedeu lugar à sedutora atribuição da culpa, único subterfúgio capaz de aplacar a desilusão dos vencidos. No banco dos réus: Moacir Barbosa do Nascimento, então goleiro titular daquele mundial e ídolo do Vasco da Gama. Segundo Armando Nogueira, o personagem mais injustiçado do futebol brasileiro.

    Mas eis que em 2026 podemos ter cometido um erro, não tão crasso quanto aquele de 1950, mas igualmente ultrajante e pouco menos injusto: a ausência do goleiro Muriel, irmão de Alisson, entre os convocados para disputar o Mundial de 2026.

    Lancelotti, o sabichão, convocou Alisson Becker voltando de lesão, e se esqueceu de assistir à Série B para constatar que o irmão mais velho de nosso arqueiro titular é de longe muito superior ao caçula. Segundo pensamos, maior erro é se esquecer de um sadio capaz de fazer a diferença para convocar um ex-atleta machucado – o eterno menino Neymar é apenas uma convocação desfalque, presença inócua, ao passo que Muriel, este sim, defende o alvirrubro pernambucano com propriedade e, ao contrário do irmão, que apenas assiste aos jogos do Liverpool em posição privilegiada, encara a epopeia de disputar uma divisão de acesso como goleiro do Náutico, eu disse bem, Clube Náutico Capibaribe!

    Ora, dois ou três leitores deste blog ilegível: quem dos irmãos encara desafio maior? Alisson, como figurante de um Liverpool milionário e todo-poderoso, ou Muriel Becker, que trabalha três vezes mais que o irmão para manter ilesa a baliza de um Náutico cujos zagueiros são os maiores inimigos do próprio time?

    Para dirimir quaisquer dúvidas, submetemos o Língua de Sogra Compara ao escrutínio de rigorosos entendedores da bola, incluindo Muricy Ramalho, Celso Roth e o preclaro Dorival Presente do Subjuntivo Júnior, a fim de avaliar qual dos irmãos tem mais estofo e condições de evitar gols contra o Haiti e demais seleções plenamente capazes de desempenharem o papel de mosca nessa sopa insípida e rançosa que é o grupo que nos representa nesse Mundial, em plena terra da Lagosta Colérica.

    Tirem suas próprias conclusões…



  • Evidências ululantes e inquestionáveis

    Digam o que disserem, fagocitem o que fagocitarem, tripudiem o que tripudiarem, mas alguns fatos são inequívocos e completamente refratários a qualquer argumento filosófico, seja ele gestado num boteco pé-sujo ou na veneranda cátedra dos mais doutos e sapientes acadêmicos.

    O problema de nosso escrete canarinho começa pelo comando. Um técnico que não viu o título do Paulista de Jundiaí em 2005 pela Copa do Brasil, capitaneado pelo agricultor Vágner Mancini; que sequer testemunhou aquele célebre torcedor botafoguense comemorar um gol de seu time com pantomimas simulando o ludismo bailarino de desbicar uma pipa imaginária; que tampouco se emocionou na final da Copa América de 1997 quando, após o apito final, o violáceo Zagallo, a beira de um infarto, arfante e armado de furor invectivo, aproximou-se da câmera da TV Globo e, com o dedo em riste, desabafou e consagrou para sempre a frase que haverá de perpetuar nossa sina nesse mundo inflamado de grandes injustiças: “vocês vão ter que me engolir!”.

    Enfim, nosso caro Lancelotti não viu nada disso, portanto, não conhece as idiossincrasias do nosso futebol, não encontra-se em condições de constatar o que está em jogo quando esse país, de quatro em quatro anos, entra nos gramados para ser humilhado de forma degradante por adversários da envergadura de uma Croácia. Ora, é preciso ter fibra para comandar nossa seleção, é preciso ser gestado nas adversidades de um Náutico, Paulista de Jundiaí e Botafogo das Parahybas para pleitear o timão dessa nau de doentes e insanos à deriva, e o único capaz de dar um rumo próspero a essa escola de escândalos e grandes presepadas é o preclaro, douto e loquaz Dorival Presente do Subjuntivo Júnior.

    Meus amigos, presumo que, se nosso mascote Canarinho Pistola não fizer as preleções desta Copa, de modo a exortar nossos guerreiros a batalhas cruentas nas quais figuramos como a parte mais suscetível a grandes fracassos, creio que não iremos muito longe nesse mundial.

    Do mais, os dados são irrefutáveis e falam por si só.



  • Exercícios lúdicos do arco da velha

    Eis que me peguei dia desses consultando, após um resgate improvável, alguns papéis datilografados entre 2012 e 2013, que remetiam a um período em que tínhamos, em nossa República da Bela Vista, uma Smith Corona – provavelmente da década de 1960 – repleta de pequenas avarias. Um desses arquivos, felizmente, foi salvo pelos descuidos daqueles tempos em que datilografávamos porcamente e quase tudo ia parar na lixeira. Tal registro, salvo aleatoriamente pela negligência de nosso desleixo, merece aqui a transcrição, por se tratar de uma atividade lúdica que cultivávamos naquela fase sub-satelital, em que orbitávamos a USP: lavrar contratos para atividades triviais, cotidianamente bestas. Desde lavar a louça até combinar as faxinas: tudo era objeto de contratos redigidos ao sabor ligeiro de nossos humores e da disposição de escrever para apenas escrever. O que valia naquele então era o advento lúdico daqueles hoje saudosos momentos.

    A bem da verdade, era uma época em que nossas cabeças não estavam preocupadas com o porvir, com os fatos consumados, hoje históricos, que se desdobrariam perante nossos olhos incrédulos e habituados àquela primavera efêmera, em que esse país ineditamente encontrava-se saudável e, no auge de nossa inocência, imaginávamos que o decurso da história seria apenas mais um lance feliz e ordinário do que aqueles dias foram, ou seja, uma euforia social e estritamente privada que beneficiava a quase todos, em um contexto favorável às nossas aspirações e objetivos que certamente se perpetuariam ao longo de nossa indecorosa história. Tempos depois, nos vimos num beco sem saída, e nele malogramos, perante o fim do túnel, surpreendidos com os eventos que se sucederam e que escancaram a nossos olhos virgens a realidade nua e crua em contornos muito mais perversos do que supúnhamos naquele então.

    O registro em questão tratava-se de uma permuta: Mauro me emprestaria uma jaqueta surrada de couro para que eu pudesse suportar o próximo inverno sem bater minhas mandíbulas que encaravam um frio que já não existe mais; em contrapartida, eu lhe daria o pôster confeccionado especialmente para o début da Onagra nos palcos da vida.

    Feito o preâmbulo, segue a transcrição de uma dessas adoráveis brincadeiras, levemente editada para fins de compreensão, visto que a máquina não permite sequer um toque distraído que redunda em irrevogável equívoco:

    INSTRUMENTO PARTICULAR DE CONTRATO

    Mauro dela Bandera Arco Júnior, brasileiro, solteiro, residente e domiciliado na Avenida 9 de julho, nº XXXX, apto. XX, Bela Vista, São Paulo – SP, doravante o contratante; e Diego Felipe Scalada (em constante decadência), portador do R.G nº XX.XXX.XXX-X, residente e domiciliado no ibid do contratante, firmam na presente data, perante a testemunha Diego Coiado do Amaral, Adevogado, inscrito sob o nº XXX.XXX, na Ordem dos Velhos e Remendados, Ilustríssimos Advogados do Brasil, o presente contrato de obrigação de fazer consistente, em entrega de coisas certas, sem haver má-fé, dolo, mandinga, tramoia, trapaça e tretas, nos seguintes termos:

    Artigo I

    Diego Felipe Scalada, doravante o contratado, compromete-se, com muita barganha, a entregar uma jaqueta de couro tomada do contratante em regime de comodato e, que fique bem claro, do contratado àquele.

    Artigo II

    O contratado compromete-se, ainda, a realizar a restituição do bem supracitado no mais tardar até o fim do próximo inverno, estando o bem em perfeitas condições e com muita disposição de fazê-lo, sob pena de admoestação verbal, injúria à mãe e vilipêndio à dignidade do contratado, coitado. 

    Parágrafo único

    Se mesmo assim ocorrer o descumprimento da obrigação, compromete-se outra vez o contratado a brindá-lo com loas e benefícios, odes e ditirâmbos, cercando-o de respeito e admiração, na exortação ao benefício da filosofia, fazendo com que o contratante permaneça em constante ilusão, delírio e pobreza.

    Artigo III

    O contratado compromete-se, uma vez mais, ao resgate do material gráfico referente à apresentação do grupo musical Onagra Claudique nos palcos do Sesc Pompeia no dia 9 (nove) de outubro de 2012, para o contratante, vulgo Papaura que, por sua vez;

    Artigo IV

    O contratante, uma vez em poder do objeto supramencionado, compromete-se a realizar o devido emolduramento e penduramento, alienadamente (que fique bem claro) do então adorno na parede direita junto à sala de estar em cujos signatários, com pompa e não menos finta, padecem e parcamente habitam.

    Artigo V

    A prestação atribuída ao contratante deverá ser saldada no prazo máximo de dois anos bissextos do já amiúde mencionado.

    Parágrafo único

    O não cumprimento da obrigação por parte do contratante acarretará, sem sombra de dúvidas, numa enxurrada de prantos, lamúria, tristeza e indignação de todos que no imóvel receptor vivem ou frequentam. 

    Artigo VI

    O ato de emolduramento, traslado, avaliação e opção estética do material objeto do presente contrato fica sob a inteira e exclusiva responsabilidade do contratante, resguardando-se as custas equivalentes e a responsabilidade de saldar tudo às expensas do mesmo.

    Artigo VII

    O objeto do presente instrumento particular de contrato permanecerá devidamente emoldurado e exposto na parede do imóvel onde residem o contratante e o contratado até o integral e recíproco cumprimento das obrigações aqui elencadas.

    Artigo VIII

    Estando devidamente acordadas, as partes subscrevem o presente instrumento como atestado de boa-fé recíproca e incontestável, diria até nunca antes vista – nem mesmo nos tribunais ancestrais de Roma.

    São Paulo, 29 de novembro de 2013.

    Firmam:

    Mauro Voadora

    Racto

    Tattu



  • Sobre vespas e versos populares

    Sempre nutri um misto de fobia e admiração pelas vespas, tanto por suas formas perversas de reprodução quanto por sua capacidade de ferrar um ser humano como só criaturas artrópodes conseguem. Em um dia tranquilo, me alternando em páginas na internet entre um café e outro, lendo sobre elas, topei com uma espécie cujo nome popular – e obviamente os nomes populares sempre prevalecerão sobre as designações horrorosas oriundas da ciência taxonômica – é vespa-cavalo-do-cão. Este nome em si já é eloquente, hiperbólico, e por isso diz muito mais do que delas esperamos. Contudo, a designação consagrada pelo crivo popular me fez pensar em nomes científicos de hipotéticas vespas e suas respectivas alcunhas populares, em versos, craro! O resultado ora vos exponho, enrubescido, dois ou três leitores deste probríssimo broguinho:


    Rugitus cariocarum

    Vespa-vapo-vapo-

    rainha-do-litrão-barato-

    sua-oferta-é-sempre-boa-

    mas-o-veneno-é sempre-caro!


    Romae imperatrix

    Vespa-vespérrima-

    antes-vespíssima-

    hoje-vespasiana-

    aguilhoou-o-rei-de-Roma-

    e-com-seu-nome-fez-a-fama.


    Musculata creatinae

    Vespa-feroz-e-malhada-

    é-virada-no-Jiraya-

    ela-é-mesmo-muito brava-

    ¡é-um-super-sayagin-de-saia!


    Vespula modica

    Vespa-“tamanho-não-é-documento”-

    seu-ferrão-pequeno-é-um-fermento-

    quando-a-dor-parece-estar-minguando-

    ¡ele-amplia-seu-tormento!


    Avispara venenosa

    Vespa-Vespax®-

    quarenta-miligramas-

    mas-só-uma-delas-basta

    pra-te-pôr-de-cama!

    Librorum liber

    “¿Quem-mexeu-no-vespeiro?”

    -essa-vespa-best-seller-picou-tantos-

    que-já-nem-se-lembra-da-vítima-

    a-quem-iludiu-primeiro.


    Vespacula axé bahiensis

    Marimbondo-Carla-Perez-

    sua-peçonha-é-só-malícia-

    e-seu-bundão-(ninguém-discorda)-

    ¡é-de-fato-uma-delícia!



  • Os amores gelados são muito mais quentes

    Comprei uma geladeira. Não é bem uma Brastemp, dessas que vemos nas melhores casas, mas cumpre sua função: é econômica, ampla e quase barata. Afinal de contas, o que importa é que comprei uma geladeira, singela, imponente e alta. E para o desespero geral das más línguas gerais – a exemplo da síndica que, quando me viu subindo pela escada com aquele trambolhão, disse aquela aquisição ter sido um exagero –, geladeira minha escolho eu, não o olho gordo dessa gente que só vê o que os olhos ocultam, sem se dar conta de que, ora, agora sim, tenho uma geladeira à altura de minhas ambições. Novíssima, em aço escovado, dividida em fartas prestações no crediário. 

    O mesmo amor que conjuga seres animados também enlaça uma alma solitária e um eletrodoméstico, seja este uma Brastemp ou não. E confesso… Foi amor à primeira vista! Tão logo entrei na loja de departamentos, com ela me deparei, se insinuando, locupletando comodamente as lacunas de minhas expectativas. E não, não tive outra reação senão sofrer resignado os influxos da paixão. Se foi um achado? Claro que não! Tenho certeza de que ela já me aguardava naquela queima de estoques, cansada de ser apenas aberta, ligeiramente apreciada, quando o que ela queria mesmo era estar plugada na tomada, gelando meus víveres, e claro, sentindo-se gelada! Pois como diz o ditado: “geladeira desligada em lar nenhum faz sua morada”. Não basta? Pois tome esse verso de Cazuza, escrito ao inspirar-se em nossa futura união: “nossos destinos foram traçados na maternidade!”.

    Hoje tenho discernimento suficiente para refletir sobre o que de fato nos irmanou como unha e carne. Ora, foi seu design discreto, sua inspiração nórdica, seu charme sueco! Vladimir, o vendedor, até tentou me dissuadir e me mostrar muitas Brastemps, mas ao ver meus olhos vidrados, passamos imediatamente à negociação daqueles 470 litros de promessas geladas em pleno verão das Parahybas. 

    Concluída a transação, me senti honrado e civil, me senti de fato verdadeiro cidadão, desses que saem para comprar uma geladeira e voltam com a nota fiscal da transação concluída na mão. Não é uma Brastemp, reconheço, mas pouco importa! Passados quase três meses, seguimos inseparáveis em nossa lua de mel glacial; importa mesmo é que comprei uma geladeira, com frost free e função drink express. Isso sem mencionar seu freezer, espaçoso como um antigo Chevrolet, de modo que hoje posso sair pelo interior disputando torneios de truco à toa – agora já tenho onde guardar minha leitoa!

    Nosso conluio não foi, sem sombra de dúvidas, efêmero, e não posso passar pelo meu corredor-cozinha sem parar para observá-la, ou melhor, apreciá-la: é uma geladeira grande e vasta, a despeito do que dizem as más línguas, dentre elas a de meu analista que, num rompante lacaniano, alegou que eu havia projetado minhas frustrações de 2024 na aquisição daquela – segundo ele – câmara fria!

    É certo, não poucas vezes abro sua porta apenas para sentir um sopro gelado refrescar minhas carnes pelo vapor do calor, em lenta cocção, cozidas. Mas daí a dizer que descontei minhas frustrações é coisa de recalcado! Aliás, não apenas pressinto, mas estou seguro de que, em suas sessões com seu analista, ele, o analista, confessa, aos choramingos, os ciúmes que sente de minha nova namorada. Ora, duvido que Lacan tenha tido uma geladeira tão grande e tão jeitosa como a minha. Poder aquisitivo? Ambos, meu analista e Lacan, têm mais do que eu. Mas bom gosto ao escolher esse formidável eletrodoméstico? Duvido e aposto – e olha que nem é uma Brastemp!

    O difícil mesmo é a separação – não a do analista – mas a de minha geladeira. Às vezes, quando estou na rua sofrendo os influxos implacáveis do sol invicto, para conforto de minh’alma, penso nela, e só de pensá-la já me gelo todo! Então é hora de voltar pra casa e abrir uma gelada que minha namorada cinza, com tanto afinco e dedicação, religiosamente me guarda. 

    Não é, definitivamente, uma Brastemp. Mas às favas meus detratores, pois agora sou titular, como muitos civis por aí, de uma formosíssima, bündcheniana geladeira. Dizem as más línguas que entrei numa fria! Entrei mesmo, mas não sem provar que às vezes é bom entrar numa fria!!!

    Me conforta o simples fato de que, dentro de seis meses, estará paga. Então será só minha, e nela hei de conservar e investir tanto minhas memórias conservadas, meus arrozes e demais derivados de arrozes, arduamente conquistados, quanto os rendimentos que terei de ganhar a fim de saldá-la e tê-la, por fim, instalada – até que o destino nos separe – em nossa cozinha alugada.



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